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Revista Científica da Ordem dos Médicos
Introdução: Este estudo teve como objetivo estimar a associação entre as circunstâncias da infância e adolescência e o consumo de álcool em adultos portugueses com 50 ou mais anos, particularmente considerando as condições socioeconómicas, o abuso físico, a integração familiar e social durante a infância e adolescência e o consumo de álcool na idade adulta.
Métodos: Realizou-se um estudo epidemiológico observacional, transversal e analítico, utilizando dados recolhidos presencialmente através de entrevistas assistidas por computador nas vagas 7 (2017) e 9 (2022) do Survey of Health, Ageing, and Retirement in Europe em Portugal. Foram incluídos todos os participantes portugueses que responderam ao módulo “Circunstâncias da infância” (vaga 7) e “Comportamentos de risco” (vaga 9). As associações foram avaliadas com os testes do qui-quadrado ou t de Student. As razões de odds (OR) com intervalos de confiança a 95% (IC 95%) foram estimadas por modelos de regressão logística binária e multinominal.
Resultados: Foram incluídos 903 participantes; 378 (41,9%) do sexo masculino e 770 (85,3%) com mais de 65 anos. O consumo de maior risco foi identificado em 220 (50,0%). No modelo de regressão logística binária otimizado foram encontradas associações positivas significativas entre o consumo de álcool de maior risco e o sexo masculino (OR = 6,444; IC 95% 4,329 - 11,111; ρ < 0,001) e ter sido vítima de abuso físico na infância e adolescência (OR = 2,063; IC 95% 1,119 - 3,803; ρ = 0,020). Melhores condições habitacionais durante a infância (OR = 0,767; IC 95% 0,608 - 0,968; ρ = 0,025) revelaram uma associação negativa significativa com o consumo de álcool de maior risco. O modelo de regressão logística multinominal otimizado indicou que ser do sexo masculino (OR baixo risco = 2,312; IC 95% 1,567 - 3,409; ρ < 0,001; OR de maior risco = 15,682; IC 95% 10,041 - 24,491; ρ < 0,001) e ter sofrido abuso físico na infância e adolescência (OR de maior risco = 2,049; IC 95% 1,200 - 3,497; ρ = 0,008) constituem fatores de risco para o consumo de álcool de maior risco.
Conclusão: O abuso físico está associado ao consumo de álcool de maior risco, enquanto viver em melhores condições habitacionais apresenta uma associação protetora. Ser do sexo masculino está fortemente associado a padrões de consumo de álcool de baixo risco e de maior risco. Estudos longitudinais são necessários para esclarecer o papel das circunstâncias precoces no consumo de álcool.
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