Pedrógão Grande – No palco de uma tragédia

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O incêndio de Pedrógão Grande nunca esteve longe da vista, nem longe do coração, desde que ouvi a primeira contabilidade do número de vítimas, na manhã de Domingo de 18 de junho. Lembro-me que foi o meu pai a transmitir-me a notícia, assim que acordei, quando estava prestes a tomar o pequeno-almoço: – “Já viste, que tragédia?… cinquenta e oito mortos!”. Eu, atónita com o número, ainda sem perceber a que é que o meu pai se referia perguntei o que tinha acontecido. – “O incêndio de ontem em Pedrógão… já contabilizaram cinquenta oito vítimas e ainda não se sabe se não serão mais… as pessoas queriam fugir, mas foram apanhadas pelo fogo e ficaram queimadas nos carros”, explicou o meu pai.

Lembro-me de ficar imóvel a olhar para o meu pai e de sentir um aperto e uma indisposição ao processar a informação. Em silêncio, liguei a televisão da cozinha e lá estava um repórter em primeiro plano com um carro completamente queimado ao fundo. “Estrada da morte”, dizia ele.

Ao longo da semana seguinte, os noticiários faziam reemergir aquilo que estava bem patente nas nossas mentes, nunca deixando esquecer, mesmo que por breves momentos, a tragédia que continuava a decorrer a duzentos quilómetros de distância.

Vivi um sentimento de impotência, querendo fazer alguma coisa que pudesse ajudar aquelas populações em sofrimento. Faltava apenas o “como”.

No início dessa semana, a minha mãe falou-me acerca de um colega de serviço que estava a organizar um grupo de voluntários para irem ajudar a comunidade afectada pelo incêndio, e eu aderi logo à causa. Queria juntar-me ao grupo e ajudar no que fosse preciso. Os meus pais alertaram-me para o facto de eu estar a meio da época de exames. Contudo, senti que lá faria mais falta e não iria perder a oportunidade de dar um contributo numa altura em que as pessoas precisavam de apoio e de uma resposta urgente.

Assim, a sexta-feira foi dedicada aos preparativos, nomeadamente, à recolha de roupa e material para serem doados, bem como de algum material médico (compressas, ligaduras, soro, Biafine, oxímetro, estetoscópio, esfigmomanómetro, etc.), gentilmente cedido por uma farmácia de Coimbra, sensibilizada pela causa.

No dia seguinte (sábado, dia 24 de junho), fazia uma semana que o incêndio tinha deflagrado. O grupo reuniu-se às 6h30, em Lisboa, partindo rumo à freguesia da Graça em Pedrógão Grande, na esperança de fazer a diferença.

Na IC-8 já se vislumbrava o rasto de destruição do fogo e todos absorvemos em silêncio, no interior do carro, o cenário de terror. Eram quilómetros e quilómetros de cinzas. Algumas raízes ainda fumegavam e o cheiro a madeira queimada era pungente e penoso.

À chegada, foi-nos mostrado o sítio onde seriam feitas as descargas das doações e a selecção de artigos: bens alimentícios de um lado, roupas do outro. Este local era o antigo “Mercado”, de onde partiria também a nossa carrinha para fazer a distribuição, para onde fosse preciso, do material já identificado e selecionado.

Posteriormente, foi pedido aos voluntários que tinham algum contacto com a área da saúde que fossem visitar alguns feridos da povoação, eventualmente a necessitar de cuidados (como, por exemplo, mudar pensos de queimaduras, etc).   

Fizémos, desta forma, uma ronda pela freguesia e, entretanto, em vários pontos do trajecto, deparámo-nos com pessoas nas ruas que falavam sobre os acontecimentos trágicos da semana anterior. Ouvimos diversos testemunhos sentidos e emocionantes quanto à intensidade e rapidez das chamas.

Uma senhora de meia-idade explicava, com nítida emoção, que provavelmente não estaria ali se não fosse a determinação da filha em levá-la para o carro e fugir dali antes das estradas serem cortadas.

Outra das senhoras, com os seus setenta e muitos anos, estava toda vestida de preto e contava-nos, entre lágrimas, que, por causa do vendaval, não se conseguia prever onde é que o fogo iria estar e que, segundo ela, “Nossa Senhora levou quem quis”. A minha mão foi, com um certo automatismo, parar ao ombro da senhora como que a dizer “estou aqui” e “não faz mal, se quiser chorar pode fazê-lo”.

Um dos homens presentes naquele círculo, o Sr. João “dos matos” (nome pelo qual era conhecido na povoação), magoara o primeiro dedo do pé direito com uma pedra e mostrava-nos, de forma algo relutante, se haviam ou não sinais inflamatórios, porque aquilo que lhe doía não era o dedo.  

Não era o único com mazelas do incêndio e da aflição que resultou das suas consequências: desde entorses do joelho, a queimaduras e perdas humanas insubstituíveis, dezenas de pessoas foram afectadas.

Vimos um casal em que o marido, depois de recorrer ao Hospital, dizia que tinha tido uma “alergia” nas pernas, devido ao calor. Mostrou um penso que tinha sido colocado no dia anterior, na face externa da perna esquerda, correspondente a uma queimadura. De resto não tinha nenhuma queixa física, mas falava sobre a parca intervenção da Protecção Civil no terreno. A esposa desfez-se algumas vezes em lágrimas, quando lembrou as vidas que se já se haviam perdido.

Destas interacções se percebeu que as componentes física e emocional se confundiam, e que o desgaste psicológico era também muito significativo.

Por outro lado, a onda de solidariedade subsequente foi descomunal, o que pareceu contribuir para uma esperança renovada. A roupa, os bens alimentares e as paletes de água não paravam de chegar e a carrinha de distribuição nunca parou.  

Reparei também que a “Associação” era o local de reunião dos habitantes da povoação. Ali estavam vários bens alimentares que as pessoas podiam recolher e havia uma pequena área na entrada com um banco de madeira que sentava umas quatro ou cinco pessoas, e duas cadeiras com uma pequena mesa redonda. Uma vez, ao ver alguns habitantes lá sentados, talvez a tentar recuperar alguma da normalidade das suas vidas, lembro-me que pensei para mim, ao ver a paisagem negra, que, provavelmente, as coisas nunca mais seriam as mesmas para aquelas pessoas, e que elas saberiam disso. Emociono-me ao recordar esse pensamento e a humildade e o brilho nos olhos dos habitantes da Graça que, apesar de terem perdido tudo, nos receberam de braços abertos e com enorme hospitalidade.

Como este grupo do qual fiz parte, existiram outros. As ajudas chegaram de vários pontos – de dentro e fora do país – e a verdade é que o impacto de pequenos gestos somados foi incomensurável.

A cadeia de acontecimentos que derivou desta catástrofe mostrou-me que somos capazes de nos unir e é um exemplo, entre muitos, do potencial da solidariedade humana. Desta feita, a experiência que tento transmitir nestas linhas não fará jus ao espírito de entre-ajuda e amor que presenciei.

Durante o tempo em que lá estive, senti sempre que estava no sítio em que era suposto estar e faço tenções de regressar para ajudar a reconstruir a paisagem que ficou reduzida a cinzas.


Patrícia Pires
Aluna do 6º ano da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa