Não entrei em Medicina à primeira… E agora?

ONLINE POST in Portuguese, commissioned | AMP Student 2017; 13

Medicina sempre foi o teu sonho, mas não ficaste colocado? Não conseguiste entrar por umas décimas? A tua média interna não era suficiente ou não foste bem sucedido nas provas de ingresso?
Aprender a gerir as expectativas, nossas e não só, não é tarefa fácil. Contudo, o teu percurso não termina aqui e se entrar em Medicina é aquilo que realmente queres, existem outras alternativas ao acesso pelo concurso nacional. São essas sugestões, juntamente com testemunhos reais, que aqui te deixamos, para que te inspires:

Melhorar as provas de ingresso. Com vista a realizar uma nova candidatura ao curso de Medicina no ano seguinte, muitos estudantes procuram melhorar as suas provas de ingresso. Contudo, uma vez que estas se realizam somente no final do ano letivo, a preparação para estas varia entre duas grandes opções: parar um ano para investir em novas experiências (como o voluntariado) e estudar para os exames nacionais, quer de forma auto-didacta, com um apoio externo ou voltando a frequentar algumas aulas do ensino secundário ou, ingressar no ensino superior (a tempo completo ou parcial), procurando alargar conhecimentos e tomando um primeiro contacto com o mundo universitário. Se, por um lado, tirar um ano para estudar implica determinação, auto-motivação e um bom suporte familiar, por outro, conciliar a realização de um curso superior com o estudo para as provas de ingresso necessita de uma boa capacidade de organização e gestão de tempo. Esta opção de fazer o primeiro ano de outro curso poderá ser particularmente útil se puderes ter equivalências no ano seguinte em Medicina (e, neste contexto, Medicina Dentária e Ciências Farmacêuticas são geralmente boas opções). Para além disso, permite-te ganhar competências transversais noutras áreas, manter um estímulo intelectual e até complementar o teu estudo para os exames nacionais.

No ano de 2015, concorri a medicina e, por destino peculiar, fiquei empatada com a última pessoa colocada na última faculdade que escolhera. 17.73 precisos valores, nem mais, nem menos… tratavam-se de números.
Confesso que foram tempos difíceis, os de aceitação (“mas porquê eu? Porquê eu e não o outro? Deve haver algum engano. Mãe, liga para lá, eu tive a mesma nota, deve haver algum engano.”).
Viciada neste pensamento eu tinha duas hipóteses: ou sentir-me derrotada, o que de facto aconteceu durante breves semanas (talvez meses), ou ver neste impasse uma nova oportunidade para provar a mim mesma se era realmente aquilo que queria (e, em caso afirmativo, lutar até o conseguir).
Porque foi também nesta “falha”, neste “erro”, que residiu uma nova possibilidade: um ano de profunda reflexão, a fazer melhorias, um ano de vida sobrevivendo e cultivando um sonho, um novo ano de vida em que poderia aprender uma imensidão de novos assuntos, explorar novas capacidades e partes de mim que nunca antes tiveram motivo.
E saliento que, para atingir este fim, fiquei ponderadamente obcecada na intuição de saber que teria de abdicar de muitas coisas durante os próximos meses e que teria muito trabalho à minha frente. Mas afinal, este era um sonho concretizável e, de acordo com a semântica, era preciso “concretizar” e arranjar novos métodos para o alcançar.
Seria ingrato não falar no papel que tiveram os meus pais, o meu irmão e os meus amigos mais próximos, até o yoga como forma de catarse… Não cheguei a lado nenhum sozinha. Todo o apoio, o carinho, a esperança gerada mas ainda não florescida, me encontravam de todos os lados.
Concluindo, o meu mais humilde conselho é que se rodeiem [de coisas bonitas], de pessoas bonitas que vos façam acreditar em vocês mesmos, de ideias bonitas que um dia hão-de florescer e, sabendo que por vezes nos dói o mundo, saber sempre que, pelo menos, ainda existe a cor. E que, afinal, nós temos “tempo”.

Ana Luísa Delgado, atual aluna do 1ºano de Medicina da FMUC


Na verdade não é fácil entrar em medicina quando estás sob a pressão de teres de tirar uma nota excepcional nos exames. Se há conselho que posso dar aos alunos nestas condições é que se preparem o melhor que conseguirem e não fiquem ansiosos, porque se merecerem entrar vão conseguir. Caso não entrem à primeira podem sempre tentar novamente, tal como fiz. Ou então, se entrarem noutro curso e estiverem a gostar, nem sequer precisam de repetir os exames, porque provavelmente vão ser melhores naquela área, embora não fosse o que tinham planeado. Por isso trabalhem e acreditem em vocês!”

Atual aluna do 5ºano de Medicina da FMUC


E sabias que
podes entrar nos Ciclos Básicos de Medicina da Madeira e dos Açores e concluir o curso de Medicina na FMUL e na FMUC, respectivamente? No caso da Madeira,  os dois primeiros anos são ministrados na Universidade da Madeira, terminando os alunos o curso na FMUL. No caso dos Açores, são ministrados os primeiros três anos do curso na Universidade dos Açores e os alunos que os concluem com aproveitamento, transitam automaticamente para o 4º ano do curso de Medicina na FMUC.


Concurso Especial para acesso ao curso de Medicina por titulares do grau de Licenciado: se estás a gostar do curso em que ingressaste e se sentes que te pode tornar melhor médico(a) no futuro, porque não terminá-lo? Ser licenciado pode ser uma mais-valia, até porque nem sempre Medicina é a primeira escolha; podes descobrir que Medicina é a tua vocação durante outro curso ou mesmo depois de começares a trabalhar.

Nem sempre pensei enveredar por este caminho, contudo, considerando a minha vivência nestes últimos anos, reconheço que finalmente descobri onde pertenço, e o que pretendo realmente fazer futuramente. Quando estava no processo de ingressar na minha primeira licenciatura, perguntaram-me: “Sabes para o que vais concorrer? Olha que é importante, pois vais fazê-lo para o resto da tua vida.” Na minha inocência, não tive a noção da força daquela afirmação. Hoje, percebo. Em 2010, ingressei na licenciatura de Medicina Nuclear, uma licenciatura que pensaria corresponder às minhas ambições. Com ela cresci, foram 4 anos, tornei-me numa pessoa mais madura. Lidei pela primeira vez com a área de saúde. Aprendi. Aprendi e apercebi-me que este era um grande mundo, do qual eu afinal pouco sabia. Senti que a minha contribuição era pequena num universo tão vasto. Queria conhecer mais, sentia que queria ir mais além. Sentia a necessidade de expandir os meus horizontes, a minha sabedoria. Queria ter um papel mais activo. Queria ser, também, um cérebro, e não só as mãos. Queria combater e curar, enfrentando corajosa e lucidamente os enigmas que tanto me desafiam. Existem pessoas que, não sabendo, influenciam as nossas decisões. Quando realizei ERASMUS, no Reino Unido, cruzei-me com alguém que olhou para a minha força de vontade e entusiasmo, e que me disse “Sofia, you should go to medical school! You should use your strength and enthusiasm! You are great as a technologist, but you will be an excellent doctor!” Já com a ideia que tinha, aquelas palavras, que vieram sem conversa prévia, deixaram-me a pensar. Terminei o curso. Tinha em mente ingressar na Faculdade de Medicina, contudo o mesmo não foi possível pois não consegui juntar todos os documentos a tempo da candidatura. Decidi, então, aproveitar uma oferta de trabalho que tive, e voar até o Reino Unido. Trabalhei durante 1 ano, como Técnica de Medicina Nuclear. Durante esse ano, tentei retirar o que de mais clínico existia, observei, aprendi e realizei procedimentos que ainda me fizeram ter mais a certeza que era esta a decisão certa. Toda a gente sabia o que queria e pretendia, e com isso sempre me foram dando força e alento. Ao se começar a trabalhar, existem grandes mudanças, ganha-se independência, não só monetária, é um estilo de vida completamente diferente, e de fácil adaptação mas mesmo assim a minha ideologia resistia. Considero a minha experiência profissional como um sustentáculo de um processo de aculturação entre mim e meio social de prestação de cuidados de saúde. Durante esse ano, concorri a todas as Faculdade de Medicina que possuíam Concurso Especial para Licenciados (maioritariamente por razões de consciência), viajando até Portugal sempre que necessário. Um facto é que hoje estou-vos a escrever já no 2º Ano do Mestrado Integrado em Medicina na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra.

Sofia Reimão, atual aluna do 2ºano de Medicina na FMUC


E sabias que
este é um concurso interno, cujo regulamento e critérios de seriação variam consoante a faculdade de medicina a que te candidatas? Nos websites das várias faculdades, podes consultar toda a informação que necessitas.


Ir para outro país: na União Europeia, os países mais procurados pelos candidatos a Medicina são Espanha e República Checa. Os exames de admissão incluem normalmente provas escritas de Biologia, Física e Química e Matemática e uma entrevista. Existem mesmo empresas específicas associadas a estes concursos e que te podem ajudar na tua candidatura. Deves sempre ter em conta que vais frequentar o curso num país diferente e, como tal, existe um período de adaptação que pode não ser fácil, mas que pode até ser benéfico para o teu crescimento.

Desde que me lembro, sempre tive o sonho de ser médica.
Quando terminei o Ensino Secundário esse sonho ficou pendente, ao não conseguir ingressar em nenhuma faculdade portuguesa devido às notas que obtive nos exames nacionais. Como não queria ficar parada, resolvi ir para outro curso – Biologia, na Universidade de Coimbra – mas sempre com o objetivo de voltar a concorrer no ano seguinte para Medicina. Durante esse ano conheci muitas pessoas na mesma situação que eu e que me informaram da existência do Centro de Estudos de Espanhol (existente no Porto e em Coimbra) que prepara os seus alunos para a língua espanhola e trata da documentação necessária para o ingresso no ensino superior espanhol. Como já tinha ouvido dizer que era mais fácil entrar em Medicina no estrangeiro, decidi usar Espanha como um “plano B” para conseguir alcançar o meu objetivo, mas sempre reticente, já que o que eu queria realmente era ficar no meu país.
Para entrar em Espanha, o que eu tive que fazer foi realizar dois exames, no início de Junho, de Química e Biologia. Estes exames são feitos em espanhol e o Centro de Espanhol fornece uns livros com toda a matéria necessária para os realizar, são relativamente fáceis e cada um deles vale 0.2 valores, que vão adicionar à média de candidatura. Há a possibilidade de realizar mais exames; no entanto, o peso deles na nota de candidatura normalmente é menor, já que cada um vale apenas 0.1. O Centro de Estudos de Espanhol foi um grande aliado neste percurso, sempre pronto a ajudar e a esclarecer qualquer dúvida, e dá-nos uma certa tranquilidade devido ao facto de não termos que nos preocupar com nada relativo ao processo de candidatura.
Neste momento, estou no 2º ano de Medicina na Universidade de Santiago de Compostela. Quando entrei em Espanha, fiquei muito contente mas também um pouco receosa; contudo, quando cheguei fui muito bem acolhida. Os espanhóis (principalmente os galegos) são muito simpáticos, para não falar da grande comunidade portuguesa que existe em Santiago (e em Medicina!). Relativamente ao curso, o nível de ensino é muito bom (tanto teórico como prático) e as disciplinas são todas muito interessantes e muito bem abordadas. É preciso estudar muito, mas para já estou a gostar bastante!
Ainda não pensei muito sobre o que vou fazer quando terminar o curso, nem onde vou fazer a especialidade. Por um lado gostava de voltar a Portugal, ter a oportunidade de concluir a formação no meu país e poder trabalhar nele, mas acho que só o tempo o dirá.
A todos os que estão na mesma situação em que eu já estive, só os aconselho a nunca desistir, a trabalhar, a esforçar-se e a tentar tudo o que estiver ao vosso alcance para conseguir o vosso objetivo. Não há nada mais gratificante do que o cumprimento de um sonho, e aí vão olhar para trás e ver que todo o esforço foi recompensado. Estar longe de casa, da família e dos amigos é um preço a pagar, mas acreditem que no fim vai valer a pena!

Ana Luísa Rodrigues, atual aluna do 2ºano de Medicina na Universidade de Santiago de Compostela


E sabias que
, atualmente, se quiseres voltar, há conversão da nota final do curso de Medicina obtida no estrangeiro, equilibrando as oportunidades tanto na tua candidatura à especialidade como na tua posição de preferência na escolha do hospital onde realizarás o ano comum?


Enveredar por outro caminho: se há quem descubra que Medicina é a sua paixão, também há quem se apaixone pelo curso alternativo. Não é errado que o teu plano B se torne o teu plano A, se, para ti, essa escolha fizer sentido!

Desde muito jovem que queria algo ligado à saúde: salvar pessoas, salvar animais, salvar o Mundo. Deparando-me com essa impossibilidade quando concorri para a universidade, achei que não haveria mais nenhuma possibilidade para mim de salvar o que quer que fosse. Não poderia estar mais enganada. Encontrei na Engenharia Civil, curso que segui e que estou prestes a terminar, várias formas de construir e reconstruir um Mundo melhor, no qual me sinto totalmente realizada.

Cláudia Lourenço, atual finalista de Engenharia Civil da FEUP


Terminadas as alternativas, resta-nos relembrar-te que não há decisões irreversíveis, estás sempre a tempo de mudar – o importante nessa mudança é que te sintas realizado!


Andreia Gi – Estudante da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra

Representante Local da Acta Médica Portuguesa-Student