Cruzamento

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Nota: Este texto não pretende denunciar qualquer pessoa ou ação que terão estado envolvidas no episódio aqui relatado. Pretende, sim, alertar para acontecimentos semelhantes que possam ocorrer no futuro.

Quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017. Eu conduzia de volta para casa, vinda de uma aula da faculdade. Sou estudante de Medicina. Que bem que sabe a tantos alunos do meu curso poder dizê-lo, às vezes quase que ostentando esta frase como um troféu – sem esta o ser, na verdade.

Fiz um desvio no meu trajeto habitual de maneira a evitar uma longa fila de automóveis. “Que sorte”, pensei eu por momentos, ao observar que o caminho que escolhera estava praticamente desimpedido.

Ao fundo da rua, num cruzamento, deparei-me com um carro branco parado, sem condutor. Ao seu lado, encontrava-se um homem de cócoras, com as roupas típicas de um entregador de pizzas, e a cuspir bastante sangue. Projetada a vários metros do carro branco, encontrava-se uma mota deitada no chão.

Não pensei em nada em concreto, simplesmente estacionei de imediato onde pude, a poucos metros do carro branco parado.

“Sou estudante de Medicina” – disse eu então a quem se encontrava no local – “posso ajudar”. Agora sim, o horror de ver uma vítima de trauma a andar de um lado para outro, a falar, tão consciente da sua dor e do que lhe tinha acontecido. Achei toda aquela cena surreal. Alguém com, não só possíveis, bem como altamente prováveis fraturas, a cambalear de um lado para outro, a baixar-se quase até ao chão, a levantar-se e a dar passos novamente.

Já no momento da minha chegada, uma mulher encontrava-se ao telefone com o INEM.

O homem, na casa dos 30 anos, andava e dizia “Ai ai ai”. Ainda hoje não me esqueço desta sua expressão exata. Um amigo da vítima, que se baixou ao seu lado para o confortar, disse algo como “Tens de te manter calmo.” Acima de tudo, não me esqueço dos olhos da vítima, muito abertos, com medo, confusão e aflição misturados, não como alguém que pede desesperadamente ajuda a outro, mas como alguém que sente a morte tão perto.

Este senhor devia ser imobilizado, pensei eu. E disse-o. Era verdadeiramente aflitivo a maneira como a vítima andava de um lado para o outro, tendo sofrido o que teria sido certamente um acidente brutal. Julgava também que o melhor seria recorrer à Posição Lateral de Segurança, que permitiria à vítima respirar e ainda poder vomitar com mais facilidade.

Uma senhora que estava no mesmo local era da mesma opinião. A custo, a vítima deitou-se no chão, na Posição Lateral de Segurança, ainda que algo incorreta. O homem depressa indicou que não conseguia respirar naquela posição. E eu não sabia qual era a alternativa. Apenas sabia que não se podia continuar a insistir numa posição em que a vítima não se sentia bem.

Mas esta dava sinais de colapso iminente. Devemos tentar manter este senhor consciente, pensei. Tendo-me apercebido do seu nome, chamei por este, talvez de uma maneira mais nervosa do que me apercebera no momento. O nervosismo em demasia não ajuda, apenas desajuda.

Em poucos segundos, a vítima tinha perdido a consciência. Surgiu a partir desse momento o meu maior medo: estaria a vítima a respirar e teria batimento cardíaco? Como raio é que eu consigo ver se está a respirar? Está em Posição Lateral de Segurança, dificilmente consigo ver os movimentos torácicos. Não me lembrava sequer de alguém ter falado em como avaliar se alguém respira ou não nessa posição.

Reparei que a cabeça da vítima tinha deslizado e a sua cara estava agora virada demasiado para cima, e não para o lado. Tentei, sem sucesso, corrigir a posição da vítima. Um senhor estava mesmo ao meu lado; contudo, permaneceu imóvel. “Por favor alguém me ajude”, disse eu. Só aí é que o senhor ao meu lado se libertou do estupor em que estava, e me foi ajudar. Mesmo assim, o pescoço não parecia estar na melhor das posições. Olhei para as minhas mãos; estavam manchadas com sangue.

Então, como que do nada, surge em cena um homem. “Sou médico”, disse. Melhor do que dizer “sou estudante de Medicina”, lá está. Senti um alívio; eis alguém que saberia certamente melhor do que eu como tratar esta situação.

Este médico palpou o pulso carotídeo da vítima. “Tem pulso”, disse ele.

Havia esperança! A vítima estaria apenas inconsciente, pensei.

Ao pé de mim, alguém já chamava nomes ao INEM. “Nunca mais chegam!”

“Calma”, disse eu. Mas cada vez mais pensava na situação da vítima. Sinto-lhe também o pulso? E se ele afinal existir e eu não o conseguir detetar, começo a fazer massagem cardíaca sem propósito e rompo-lhe os pulmões ao partir-lhe as costelas?

Nem sequer me atrevi a sentir o pulso carotídeo; sentia que não era competente o suficiente para o avaliar, e que isso me poderia levar a tomar decisões erradas. Mas já tinha passado algum tempo desde que o médico o avaliara – a vítima poderia já ter entrado em paragem cardíaca.

“Massagem cardíaca” disse eu em voz alta. Mais para o ar do que para alguém em específico. Depois olhei para o médico e, aí sim dirigindo uma questão, perguntei: “Fazemos massagem cardíaca?”

Não me respondeu. Não posso dizer com certeza se foi porque não me ouviu ou porque simplesmente me ignorou.

“Massagem cardíaca”, voltei a dizer para o ar. Apenas dizia o nome, nem sequer formulava uma frase.

“Pode-lhe partir as costelas”, disse uma mulher ao meu lado. Chorava compulsivamente. Ao pé dela, o amigo que antes chamara pelo homem da mota dizia algo no tom de “isto não pode acontecer”, que aquele homem era pai de 3 crianças pequenas.

Olhei momentaneamente para a mulher. “Não importa”, respondi. Isto é, se alguém já está em paragem cardíaca, assegurar alguma circulação do sangue é mais importante do que ter costelas partidas. Lembrava-me de isso me ter sido ensinado nas aulas do ano passado.

“Massagem cardíaca”, voltei a repetir. Olhei à minha volta, mas ninguém ia responder. Mais do que isso, pude notar que já não havia sinal algum do médico que tinha estado no local momentos antes. Desaparecera por completo.

Agora tinha chegado ao local a GNR, mas nada fazia a não ser escrever as matrículas dos carros mal estacionados que se encontravam por perto. “Estacionei aí para ajudar”, avisei eu. O agente da GNR respondeu-me num tom de “Não se preocupe.” Uma resposta em muito desajustada à situação.

Seguiram-se os momentos mais excruciantes de todo este episódio. Eu olhava para a vítima, sem poder fazer nada. Entre a não maleficência e tentar a beneficência, eu escolhera a primeira opção.

Das imagens mais presentes que ainda tenho hoje é a de quando estava ajoelhada perante a vítima, com o corpo dela a ocupar o canto inferior do meu campo de visão, estando eu a olhar fixamente para a estrada vazia que já tinha sido completamente desimpedida pela polícia por aquela altura. A cada segundo esperava pela ambulância que teimava em não vir. A cada segundo, a concentração de oxigénio do homem deitado à minha frente, caso estivesse efetivamente em paragem cardiorrespiratória, descia a passos largos. As células nervosas do ser humano são tão sensíveis à falta de oxigénio que morrem em poucos minutos. Eu sabia o que poderia estar a acontecer naquele momento, mas nem sequer o consegui confirmar.

Finalmente, uma ambulância apareceu no meu campo de visão. Assim que esta chegou ao local, saiu de imediato uma enfermeira de lá, que, em menos de 3 segundos, confirmou a ausência de pulso da vítima e iniciou logo a massagem cardíaca. “Está em paragem”, gritou a enfermeira para os restantes técnicos da ambulância. As manobras de reanimação tinham sido iniciadas de imediato. Os equipamentos portáteis e os sacos com o material de socorro foram trazidos para junto da vítima, iniciou-se uma perfusão endovenosa e dali a momentos a médica tentava intubar. Permaneci mesmo ao lado de todo este aparato, informei que já tinha realizado estágio no INEM, que era estudante de Medicina e que estava disponível para ajudar.

Durante o processo, pediram-me para retirar uma seringa, que eu soube encontrar lembrando-me do meu estágio. Também me pediram para passar um outro objeto de um tipo específico qualquer, mas que eu não soube encontrar. Cada estágio de ambulância de INEM (SBV, SIV, VMER) que realizei tinha a duração de 8 horas seguidas, nas quais a grande parte do tempo era passada à espera de uma ocorrência. Tinha-me familiarizado apenas por alto com as malas que eram levadas na ambulância; numa situação de emergência, eu nem sabia ajudar nos aspetos minimamente específicos.

Um técnico do INEM continuava com a massagem cardíaca. À cabeça da vítima, a médica deparava-se com dificuldades em intubar. O sangue que estava na boca da vítima espumava abundantemente à medida que a via aérea ia sendo desobstruída.

Eu olhava para a cara do homem ainda em paragem cardíaca, que todo este tempo permanecera com os olhos completamente abertos, tão abertos como quando ainda andava de um lado para o outro, em extrema aflição. Eu pensava repetidamente “Por favor tem pulso, tem pulso, tem pulso, …” Não sou religiosa, mas era quase como se estivesse a rezar.

Demorou uma eternidade até a médica do INEM dizer “acho que lhe consigo detetar o pulso”. E ainda mais um bocadinho até o valor da frequência cardíaca aparecer no monitor do aparelho multifunções ligado à vítima. Senti um enorme alívio.

A saturação de oxigénio estava baixíssima, cerca de 64 %. O oxigénio tinha desde logo sido fornecido, mas a meio do processo ainda teve de se verificar se a válvula da botija de oxigénio estaria devidamente aberta.

Algum tempo passou até a saturação de oxigénio começar a subir. O tórax magro da vítima, começara, após a massagem cardíaca, a apresentar hematomas, autênticas manchas de sangue vivo por baixo da pele. Passados alguns minutos, o mínimo de estabilidade aparentava ter sido alcançado. A enfermeira passou então a resumir em voz alta a intervenção, segundo os pontos ABCDE (Airway, Breathe, Circulation, Disability e Exposure).

Antes de transferirem a vítima para uma maca e depois para a ambulância, a mesma enfermeira aproximou-se do homem já reanimado e tentou encerrar-lhe as pálpebras. As pálpebras não baixaram. A enfermeira tentou novamente. Os olhos do homem permaneceram tão abertos como sempre tinham estado. Apesar de todo o meu alívio ao saber que o homem voltara a ter batimento cardíaco, tive, naquele momento, um mau pressentimento.

Ajudei a transportar o equipamento para dentro da ambulância e dali a instantes o que restava na estrada eram uns poucos papéis e um ou outro elétrodo não usado. Algum sangue estava também presente.

Olhei para os agentes da Polícia de Segurança Pública ao dirigir-me para o meu carro. Encontravam-se a falar com o condutor do carro branco no qual a mota embatera, que permanecera no local durante todo o processo de reanimação. Não aparentavam querer falar comigo. Retomei a minha viagem de regresso a casa.

Nos dias que se seguiram, fui à procura de médicos que me informassem sobre como estaria a vítima da mota. Esta sofrera, com o acidente, várias fraturas de costelas que lhe tinham causado um hemopneumotórax hipertensivo bilateral, o que levara então à paragem cardiorrespiratória. Soube que tentaram, passados um ou dois dias, retirar a vítima de coma induzido de modo a avaliar a presença de sinais cerebrais, que se revelaram inexistentes, mesmo a uma posterior tentativa.

M&Ms
Num curioso livro sobre cirurgia, o médico Atul Gawande descreve as chamadas Morbidity and Mortality Conferences (M&Ms), onde os médicos falam abertamente sobre os seus erros e discutem o que podia ter sido feito de modo a evitá-los. Embora não seja uma prática instituída em Portugal, tentei, neste texto, apresentar vários dos pontos nos quais, caso me dessem a oportunidade de voltar o relógio para trás, eu teria agido de diferente modo.

i. Segurança do local
Quando cheguei, para além de estacionar num sítio fora da estrada, não me preocupei muito em avaliar a segurança à minha volta. Tanto o condutor da mota como os dois veículos envolvidos se encontravam em pleno cruzamento, com carros a querem passar de um lado e do outro, alguns em câmara lenta só para verem “ao pormenor” o acidente. De início, nem o condutor do carro tinha colete refletor. Só me lembrei depois que eu também poderia ter colocado o colete refletor que trazia no meu próprio carro. Não posso dizer com certeza se o triângulo de segurança tinha sido colocado na estrada; seria dos primeiros aspetos a assegurar.

ii. Abordagem da vítima
Contrariamente ao meu instinto, as vítimas de trauma, caso se encontrem a mover-se de um lado para outro de modo voluntário, devem ser deixadas “em paz”. “O próprio corpo”, como me disse um médico, “defende-se automaticamente da dor”. Assim que pararem, devem ser ou deitadas ou sentadas contra uma superfície estável, e o pescoço deve ser imobilizado com as duas mãos por parte de quem presta a assistência. A Posição Lateral de Segurança é usada após se ter verificado que alguém respira, de facto, normalmente. E não conseguindo observar os movimentos torácicos, poderia ter aproximado o ouvido, uma mão ou mesmo uma loca de cabelo junto à face da vítima, tentando perceber se estava a ventilar. Embora de pouco servisse neste caso, também na grande maioria dos carros se encontra um estojo de primeiros socorros, que poderá vir a ter utilidade.

iii. Iniciar massagem cardíaca – sim ou não?
Em primeiro lugar, deve tentar avaliar-se se a vítima está, ou não, em paragem cardiorrespiratória. Para alguém fora das áreas da saúde, tal passa unicamente pela verificação da presença ou não de respiração normal. Por sua vez, um profissional de saúde poderá recorrer à avaliação do pulso. Caso se verifique a ausência de respiração/ batimento cardíaco, devem ser iniciadas as compressões torácicas. Na dúvida de estes existirem ou não, numa vítima inconsciente e que parece não respirar, deve ser iniciada massagem cardíaca de qualquer das formas (com a vítima em deitada em plano duro). Infelizmente (isto no caso de médicos ou estudantes de medicina) nem sempre levo comigo o estetoscópio, mas, na dúvida em saber se a vítima está ou não em paragem cardiorrespiratória, este poderia, em último recurso, ter sido utilizado. Tal ter-me-ia dado a certeza de que deveria, efetivamente, ter iniciado a massagem cardíaca.

Uma vez um médico disse, numa palestra para estudantes de Medicina, que “devemos sentir empatia pelos doentes, mas isso não nos deve consumir”. Este caso consumiu-me. Nas semanas seguintes, as vítimas dos meus desabafos não ouviram praticamente outra coisa de mim que não fosse sobre o acidente. Pequenas coisas no dia-a-dia faziam-me lembrar do que tinha visto e sentido. A pouco e pouco, fui deixando de pensar tanto no assunto.

Por mero acaso, a vida daquela vítima e a de uma estudante de medicina que pouco preparada estava para lidar com a situação cruzaram-se naquele dia. Também por mero acaso, alguém que afirmava ser médico e dava esperanças de poder melhorar a situação cruzou-se com a mesma pessoa naquela ocasião. No mesmo cruzamento, podia ter estado uma estudante de medicina com formação em emergência médica – mas não esteve. No mesmo cruzamento, podia ter estado alguém que, sendo efetivamente médico ou não, tivesse iniciado massagem cardíaca quando a estudante à frente dele não o conseguiu fazer por ter dúvidas – mas não esteve.

Um dos médicos com quem falei disse-me que o desfecho desta situação era praticamente inevitável. Apesar de tudo, deixo a mensagem final que esta história podia ser a de qualquer um de nós, estudantes de medicina, bem como a de qualquer tipo de médico que esperemos vir a ser no futuro. Pois, por mais que o passado seja inalterável, o futuro, para quem esteja disposto a aprender com os erros dos outros, está longe de o ser.