Hanseníase Estudo comparativo entre doentes antigos e recentes

 

A hanseníase representou, até há poucas décadas, um importante problema de saúde pública em Portugal Continental. Segundo os dados da Direcção Geral de Cuidados de Saúde Primários, a incidência e prevalência da doença têm decrescido progressivamente e de forma significativa nos últimos anos.Considerando que se trata de uma endemia em regressão, propusemo-nos avaliar se existiriam modificações significativas na forma de apresentação dos novos casos.

 

Para o efeito, efectuámos um estudo comparativo baseado na revisão dos processos clínicos dos 18 doentes actualmente seguidos por doença de Hansen na Clínica de Dermatologia dos Hospitais da Universidade de Coimbra, 13 homens e 5 mulheres. Distinguiram-se dois grupos . Os doentes diagnosticados antes de 1990 (designados doentes antigos) e os diagnosticados depois de 1990 (designados doentes recentes. No primeiro grupo existiam um total de oito doentes e no segundo dez doentes. Foram registados a idade dos doentes , sexo, naturalidade e residência, idade de início da doença, nº de casos iniciados antes dos 20 anos, forma clínica de apresentação (segundo a classificação de Ridley e Jopling) e a presença de incapacidade determinada por sequelas da doença. Foi feito um teste T-student na comparação de algumas das variáveis em estudo. Verificámos que os doentes antigos eram, em média, 11 anos mais novos que os doentes recentes. A idade de início da hanseníase foi, em média, 18 anos mais tardia nos doentes recentes, revelando-se esta diferença estatisticamente significativa pela aplicação do teste T-student (p<0,05). Quase metade dos casos recentes (quatro doentes em dez) representavam muito provavelmente hanseníase importada do Brasil, enquanto todos os casos antigos eram de origem autóctone. As formas multibacilares predominaram em ambos os grupos, correspondendo a 89% de todos os doentes. A frequência de sequelas incapacitantes foi semelhante em ambos os grupos. O nosso trabalho, embora referente a um nº reduzido de doentes, sugere que as características clínico-epidemiológicas da hanseníase têm-se modificado significativamente nos últimos anos , sendo as modificações observadas na forma de apresentação dos novos casos, concordantes com a situação epidemiológica actual. O nosso estudo parece ainda sugerir uma crescente importância da lepra importada , veiculada por emigrantes em países endémicos, de regresso a Portugal. Alerta-se para esse fenómeno, que, conjuntamente com a epidemia do Síndrome da Imunodeficiência Humana, pode, teoricamente, proporcionar as condições para um recrudescimento da hanseníase, tal como se verifica actualmente com tuberculose.